19/10/2016

Sobre Crivellas, Globelezas e a mulher decorativa



Ontem, em pleno debate eleitoral, a múmia que pretende assumir a prefeitura do Rio de Janeiro fez a gracinha de dizer que o sucesso do debate era graças à beleza das duas jornalistas que estavam fazendo a mediação. Ufa, que tiro no pé, eu pensei. Mas, na verdade, não tanto, porque ainda vejo um monte de gente dizendo: mas por que se importar com isso? O que tem demais? Ele só quis ser gentil, vocês estão vendo problema em tudo.

Bom, o problema não começa no Crivella, claro. O problema talvez seja ainda existir, em 2016, uma mulher como a Globeleza sambando com o corpo pintado para agradar os homens. Ou as dançarinas do Faustão que existem com o único intuito de decorar o palco com seus corpos e rostos bonitos. O problema talvez seja uma mulher ainda precisar enfrentar, enquanto atua profissionalmente (como as duas jornalistas atuavam), comentários sobre a sua fisionomia, que nada tem a ver com a história. Será que o Crivella teria feito o mesmo comentário se fossem dois jornalistas homens? Será que dá pra imaginar um Globeleza homem com o corpo nu e pintado sambando na nossa televisão ou uma legião de dançarinos decorativos atrás do Faustão? Por que não?

Tratar a mulher como item decorativo também faz parte do discurso que nos vende, o tempo todo, maquiagens e produtos para cabelo e cremes anticelulite e pacotes de academia e drenagens linfáticas e cirurgias plásticas. É preciso ser bonita, diz o discurso dominante, e bonita segundo o nosso padrão. Caso contrário, você não vale nada. Não interessa a sua graduação, o seu mestrado e o seu doutorado, não interessa que você fale 5 idiomas, não interessa que você tenha opiniões sobre política e economia, não interessa. Os homens querem algo bonito pra olhar - e, adivinha, esse algo é você. Se não estiver do agrado deles, volta lá pra fila e começa tudo de novo, gasta aí a sua poupança e o seu tempo, gasta a sua energia, mas volta bem linda (e bem magra também, por favor).

O tal do "empoderamento" (palavra que de tão usada já foi absorvida e cuspida de volta pelo sistema faz tempo) veio como uma forma de contra-discurso, ou seja, uma tentativa de valorizar as mulheres não-padrão, as mulheres que não são magras nem brancas nem têm o cabelo liso socialmente exigido. É um contra-discurso extremamente válido - sem o qual, eu, hoje, estaria me arrastando pelos cantos esperando emagrecer para começar a viver, o que não é o caso. Mas, mesmo aí, nesse contra-discurso, mesmo nessa tentativa de reconhecer a beleza que o padrão não inclui, não é que a gente continua aqui, falando sobre beleza?

Uma amiga me expôs um questionamento um dia que eu achei bastante interessante. Ela (psicóloga) se perguntava quantas horas ela já tinha perdido fazendo cabelo e maquiagem para ir trabalhar. Supondo 1 hora por dia, 5 dias na semana, isso dá 240 horas por ano. Todo esse tempo um psicólogo homem poderia usar para investir na própria carreira - talvez fazendo um curso, talvez atendendo mais pacientes. A longo prazo, que efeitos isso tem na disparidade entre a carreira dele e a carreira dela? "Ah, mas isso é fácil de resolver, é só ela parar de ligar pra maquiagem e cabelo, e pronto." Será? Será que os pacientes não criariam uma imagem desleixada dela? Será que ela não pareceria, para eles, menos profissional? Provavelmente. Uma mulher arrumada, afinal, é uma mulher maquiada, diz o discurso dominante.

Enfim, talvez esteja na hora de ampliar a nossa constante insistência em validar a beleza de mulheres não incluídas pelo padrão e pular para outro questionamento: por que eu preciso tanto ser considerada bonita? Por que isso ainda é uma questão? Por que, entre outras tantas capacidades, a que eu realmente quero que os outros percebam e enfatizem é a minha beleza? A resposta para muitas dessas perguntas a gente já sabe: é por conta de comentários como os do Crivella, é por conta da Globeleza, das dançarinas do Faustão, é por conta dessa constante associação entre assuntos como "beleza" e "mulher", como se os dois fossem sinônimos, é por conta de todo um discurso construído para determinar o que é belo segundo o patriarcado e fazer com que mulheres morram (literalmente) para se encaixar um pouco dentro desse discurso.

O tal do empoderamento até que cumpriu bem o seu papel, acho. Mas é claro que, em algum momento, ele (como tudo) seria absorvido pelo mercado. Então fica a questão: será que uma das possíveis revoluções não seria extrapolar o empoderamento e encontrar o que vem depois? Sim, ok, obrigada, me sinto bonita gorda, consegui subverter o conceito de beleza que a mídia andou me vendendo desde sempre, mas e aí? Quando é que eu saio dessa gaiola? Quando é que vão me permitir estar feia sem que isso seja um crime hediondo? Quando é que a feiura em mulheres deixa de ser um crime hediondo? Quando é que um homem como o Crivella vai deixar de se sentir no direito de legitimar ou não uma mulher a partir da teórica "beleza" dela?








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