06/09/2016

Lost in translation





































minhas articulações rangem mais do que nunca
pareço um prédio em via de demolição
algo em mim retorna eu não sei por que
aos dias infantis de franja no meio da testa
e aparelhos ortodônticos a traçar na boca
um prateado constrangedor
já não me constrangem os prateados pelo contrário
sinto muita vontade de usar brilhos ao meu redor
essa liza minnelli que carrego sentada na garganta e às vezes
explode e sai
faz tempo venho abraçando a ideia de não estar conforme
o mundo quer que eu esteja
faz tempo venho abraçando a ideia de não estar
simplesmente
penso em abduções com mais frequência do que gostaria
de admitir e quando for o caso quero estar brilhosa
e precisamente aleatória
tão aleatória quanto posso ser
meu corpo anda rugindo e reclamando meu corpo choroso
por essa vida morrinhenta
mas levanto mesmo assim pego a tesoura e corto enfim
uma bela franja com cara de criança esquisita dos anos 80
quero estar fora quero tanto estar fora
porque sempre estive sem nunca me permitir estar
mas agora os tempos são outros e já não reclamo quando percebo
que houve algum desencaixe na transmissão
lost in translation
eu desde sempre perdida no japão
calço um tênis prateado de astronauta fazendo carinho
nos cabelos espalhados
e olho pro céu imaginando quando
sem pressa mas quando
só por curiosidade por favor quando
eles chegam pra me buscar