21/08/2016

Ode ao salto




























quando os cavalos mergulhadores são obrigados
a mergulhar eu li
que para que eles não fujam e não desistam
na hora h
o chão lá de cima se abre sozinho
de forma que não há outra saída
a não ser descer e entrar de cabeça
na água lá embaixo
e é só assim que os cavalos mergulhadores não
desistem nem recuam nem mudam de ideia
porque na verdade eles não sabem
que estão prestes a cair
eles não sabem que serão jogados de tão alto
encurralados em uma situação onde
não existe retorno não existe
plano b exceto abraçar a queda agora
já que ela está aqui e exige
ser experimentada
e eu pensei que se eu fosse um cavalo
e fizessem isso comigo da próxima vez eu
é que não subiria as escadas
eu é que não pisaria lá em cima de novo
sabendo que mais uma vez o chão
poderia se abrir e eu mais uma vez
seria obrigado a saltar
talvez os cavalos sejam inocentes e não
pensem que se um homem fez uma coisa uma vez
ele vai fazer outras também talvez os cavalos
sejam benevolentes e queiram dar novas
chances aos homens ainda que eles não mereçam
e continuem jogando os pobres cavalos
lá de cima
para boca do mar
na verdade pensando bem eu também
não sei se eu li isso ou se imaginei quando
vi a fotografia de um cavalo saltando
e concluí que não haveria motivo pra um cavalo
saltar de bom grado espontaneamente
os cavalos não são suicidas como nós somos
os cavalos têm algo incrível chamado
instinto de preservação
então a não ser que fossem obrigados não saltariam
os cavalos mergulhadores querem ser só cavalos
foi o que eu pensei
eles querem ser só cavalos
no chão onde podem segurar a vida com os cascos
potentes e exercer suas habilidades de galopar em alta velocidade
mas talvez eu é que não entenda nada
de cavalos e de saltos
e talvez haja saltos que não são suicidas
talvez os cavalos entendam alguma coisa
lá em cima e saltem mesmo porque querem
porque o chão não é o bastante para os seus
cascos potentes e suas habilidades de galopar em alta velocidade
talvez eu devesse ser mais como os cavalos
mergulhadores e me lançar de alturas inconciliáveis
para tentar entender
alguma coisa
que o chão não permite
que eu entenda



(Poema escrito em resposta ao poema Um salto, de Danielle Magalhães. Ambos foram publicados aqui: http://www.mallarmargens.com/2016/08/danielle-magalhaes-e-maira-ferreira.html)