05/08/2016

5 divagações sobre Stranger things




[Esse texto contém spoilers sobre a série.]



Pra qualquer pessoa com acesso ao Facebook, o boom de Stranger things foi impossível de ignorar. Depois de ver os 8 episódios da primeira temporada, entendo a comoção generalizada. O motivo poderia ser a trilha sonora incrível, poderia ser as referências a vários elementos dos anos 80 (entre elas, o filme ET que tanto fez parte da minha infância), poderia ser o suspense, a trama, a ficção científica. Mas o que mais fica depois que a gente fecha o último episódio são mesmo as crianças da série. E foi pensando nelas que escrevi algumas divagações sobre o que mais me cativou:


1) a dimensão alternativa - ou o "mundo invertido" - onde Will vai parar é acessada de 2 formas: pelo portal e pelo monstro. Enquanto o portal é controlado exclusivamente por adultos e tem, ao seu redor, elementos que marcam bastante a vida adulta (exército, militares, cercas elétricas, armas, homens de terno), o monstro, por sua vez, já em sua primeira aparição, cerca uma criança de bicicleta. Da segunda vez, leva uma adolescente. Depois, aparece pra Nancy e pra Jonathan, também adolescentes. E, se ataca Joyce, é somente porque essa está constantemente tentando acessar a outra dimensão, em busca de Will. Em outras palavras, me parece que às crianças e adolescentes resta o acesso pelo monstro, pelo fantasioso do monstro, pelo horror disforme do monstro, enquanto os adultos controlam as passagens oficiais.

2) ué, e daí? E daí que essa dimensão alternativa, tão sombria, tão desértica e ártica e cheia de labirintos gelados e pegajosos, me lembrou o nome daquele livro, que eu nem cheguei a ler mas que o nome já me dá um susto, chamado "O lado obscuro de nós mesmos" (da Elisabeth Roudinesco). Sim, o mundo invertido me parece um pouco isso, me parece o que há de mais obscuro, somente o que há de mais obscuro espremido em um lugar só. E é simbólico que a chegada a esse lugar seja ritualizada e programada e cercada de cuidados pros adultos, enquanto pras crianças é sempre um susto, é um ser pego de surpresa, é um ser pego pelo monstro que personifica o horror.

3) de certa maneira, a forma como o mistério reproduz a narrativa de Dungeons & Dragons e a utiliza como base coloca toda a trama dentro de um território ficcionalizado, um território, em suma, infantil. E é interessante pensar que, se o mundo invertido, ou seja, se o lado obscuro é um território tão adulto, passível de ser acessado pelas crianças somente através do monstro, da personificação do monstro, então a ficcionalização dele, a sua transformação em uma espécie de aventura de RPG nada mais é do que a tentativa infantil de alcançá-lo e assimilá-lo, de alguma forma.

4) também é bonito que as crianças ainda personifiquem o horror no monstro, uma tentativa que a gente ainda sustenta pela adolescência e, vez ou outra, pela vida adulta, deixando a vida ser  maniqueísta como ela não pode ser. Do lado de lá, os homens maus, os monstros, os pecadores, os coxinhas (ou os esquerdistas, vale também). Desse lado, a gente, tentando restaurar um bem estar inviável, se apegando firmemente a essa ideia de que, eliminado o monstro (tenha ele a forma que tiver), pronto: estamos a salvo.

5) o fim da temporada acaba sendo, talvez, o ápice do simbolismo exatamente por isso. Tendo estado no mundo invertido, tendo visto "o lado obscuro" de perto, Will retorna, aparentemente bem, aparentemente saudável, retomando as atividades normais, mas, secretamente, ainda cospe partes do monstro que ficaram dentro dele. Já não é o monstro o problema, já não é uma divisão certeira e visível entre o bem e o mal, entre nós e eles, mas uma linha tênue em que ambos se misturam: o monstro foi, enfim, descoberto, mas não estava fora, pronto para ser morto e eliminado, e sim dentro de nós (e a gente cospe um pedaço de tentáculo aqui, um pedaço de tentáculo ali, mas quem vai saber o quanto do monstro ainda se tem por dentro?).




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