31/08/2016

31-08-16 (ou Premonição)






































desde cedo o músculo das minhas costas
treme sozinho
embaixo da chuva o hino
nacional eu ouço um riso
alguém fala sobre tatuagens e viagens
e eu levo um susto que ainda existam tatuagens e viagens
num dia como
esse
agora lembro que
nas aulas de história
nos momentos graves da história
eu nunca entendi onde estavam
as pessoas enquanto o horror
se agigantava
não enxergavam não ouviam não é possível que ninguém
tenha levantado a mão
mas agora entendo agora
vejo que as pessoas estavam onde nós estamos
as pessoas ficam onde ficam as pessoas
alheias esmirradas ensinando uma receita de pudim de coco
revoltadas até as cinco e depois num happy hour
porque tem dose dupla
e a gente pode enfim discutir a season finale
que vimos ontem na netflix
as pessoas estão onde sabem estar
talvez com alguma frase de efeito na língua
para repetir quando a descrença bater
e não for possível mudar
de assunto enquanto
é tempo
uma amiga falou da chuva
um amigo de um novo emprego
lentamente voltamos ao sossego
dos resignados
meu ombro treme sozinho convulsivo
temendo tudo que se tem pra temer
quando se carrega um amanhã de ferro nas costas
cantando mentalmente uma música da minha adolescência
que hoje por algum motivo me veio
de volta
if you wanna bring me down
uma mulher de vermelho não chora
go ahead and try
pode tentar que eu não caio
mesmo quando caio
eu não caio
eu volto por cima eu esperneio eu agarro
o que houver por perto e na pior das hipóteses
se me afundam eles afundam junto comigo
logo mais vou esquecer toda essa música
vou estar vendo um filme distraída com a pipoca
pronta pra vez ou outra cuspir uma palavra
de ordem que não reverte nem distorce
ordem alguma
até que um dia eles me batam à porta e talvez eu já não tenha
mais que um tremor discreto para responder
ao rugido deles