11/02/2015

Ricardo,



























quero te dizer o que eu não digo. mesmo quando falo e falo, dizer o que eu não digo, dizer o que eu não - quero te pegar pelo braço e te matar um pouco com cada uma das minhas mortes, e tantas, te quero morto e enterrado, ricardo, te quero com a maior das vitalidades do mundo, e inventar pro seu ouvido um grito novo que nem o deus ousou gritar, pra toda essa pressa e essa procura, essa angústia, essa angústia, essa angústia, agarrar teu rosto entre as mãos até não sobrar rosto ou mãos, até não sobrar ouvido ou grito ou deus, se é que ainda sobra algum, ricardo, eu não sei de muita coisa, mas carrego no peito o choro de todas as crianças sem amanhã e você não vê. dezessete vezes e mais te entreguei minha vida nos braços, inteira, devota, como um rei, sim, como um rei, e no entanto te odeio com o vigor de um sangue que sequer me pertence (quem é esse que me invade como um feto indesejado e me faz impulso puro diante do mundo, eu não sei, eu apenas obedeço minhas próprias ordens e por isso) te odeio com a latência dos meus vinte e dois anos, mesmo quando quero te amar cada pedaço do corpo e além, ou vice-versa, também te amo ontem apesar das vontades de usar em você meus dois caninos até despedaçar por completo a tua estrutura de gente montada. mas tudo, tudo, menos a mudez, ricardo, menos a mudez, quero te dar o que fica quando todo o resto já foi dado, minha perplexidade e minha vontade de pegar fogo, amém, mesmo porque eu desconfio que o deus vem colocando em mim uma loucura não comportável e eu, explosiva, pago o preço por todos os amputados, aleijados, desastrados, os mudos, os cegos, os surdos, sou eu quem respira a existência de todas as prostitutas, é em mim que se aloja a vida dos corcundas e dos deformados. você diz: não enlouqueça. não morra. não pare. você diz: não. eu puro sim sim sim sim sim simmmmmmmmmm escorrendo pra cima de você com uma imensidão de oceano que só deus sabe onde vai dar, como um rio, matando e matando sutilmente, perdendo-se por entre as brechas, escoada e transparente, estou frágil como uma gota de água nua e você - você o quê? eu não sei você, eu tampouco me sei, mas a vida me arde como uma queimadura de terceiro grau em plena retina, em plena epiglote, e eu sigo - veja você - vivendo bonitinho, de cabelo cheiroso, roupa nova, emprego e tudo mais, como alguém que aceita embora eu não aceite nada, como alguém que se faz de pessoa embora por dentro... eu gostaria de você o vermelho, ricardo, mas você me acusa de ser nova porque não desconfia que eu já tenho mais de oitenta e sete anos e é o maior de todos os pesos envelhecer tão jovem, inclusive porque eu sou toda pra ontem e minha secura infernal de criança não se deixa enganar pelos meus molhados de mulher, não, todo o corpo do mundo não ocupa os meus recantos, e eu bem sei que com você não seria muito diferente porque mesmo o teu abraço só faz me deixar diante da minha própria falta. e para além dos papéis sociais e das conveniências éticas do cotidiano, eu gostaria do seu grito, do seu choro, de uma pele sobre outra pele, pra enxergar de você o seu vermelho, o seu aberto, as suas chagas, a carne, a carne, a carne, te querer inteiro e fragmentado com todo o meu querer opaco (e você sabe, é tendência minha querer ser esfarelada). vez ou outra me escapo de mim mesma e não sei mais como me recuperar, então te olho no olho e me sobe o impulso de te jogar sobre o rosto comentários de macabéa: não sei ser possível, ricardo. como se faz pra ser uma pessoa? por favor, me ensine, não com toda a sua teoria estudada, na qual você se camufla como uma máscara, mas com a sua voz de homem e de gente, o que eu preciso é olhar o teu rosto como fica quando explodido por dentro, sim, por favor, deixe um dentro escorrer pra fora apenas pra que eu me acalme e possa te abrir-me inteira, pétala por pétala, como uma flor, queira você ou não. eu tenho uma grande calamidade em mim e, ricardo, meu desastre fala com o seu desastre, mesmo quando ninguém diz nada. aliás, também não sei porque digo agora, talvez fosse melhor emudecer, mas na minha agonia está a espera pelo inominável e é por isso que tanto te mato, que tanto te quero morto, que te quero vivo, que te - o seu vazio encosta no meu vazio todo dia e isso me vem como um choro de bebê recém-nascido, ainda que também uma morte, sempre uma morte, sempre, morte, sempre. então abro os olhos e você continua ali com um sorriso morno e eu pensando que medo, meu deus, que medo, como tenho medo, tanto medo, quanto medo, pelo amor de deus, daí uma vontade de te abraçar com todo o meu inteiro até sentir você respirar dentro de mim e poder dizer: pronto, agora sim. nem tudo está perdido, ainda se pode isso, ainda se pode. e talvez você não entender nada, talvez nem eu, mas os idiomas todos murcharem diante do agora que explode e se esvai - é esse o deus sem rosto que às vezes desce e nos beija a boca sem piedade, isso eu posso te dizer. no fim das contas, toda boca é a nossa, toda língua é a nossa, e não há beijo possível, com ou sem os deuses, tanto faz. ai, mas eu te espero com uma calma fatídica (e não me interprete mal, se sou incomunicável é apenas porque continuo estrangeira em qualquer lugar), te espero ainda com a sede das mortes e o carinho afiado de quem esfaqueia a garganta alheia com os olhos escorregando em lágrimas, eu te espero ainda e sempre, para sempre em cada agora, com uma efemeridade que me acusa a cada instante. você diz: escreva. fale. continue. eu, sem palavras, respondendo com o corpo todo, gritando em silêncio: ricardo, por favor, não me obrigue a domesticar a vida, eu não posso ser civilizada! (pois estou louca, acesa e perigosamente viva) o que eu preciso é da tua palavra que vem do estômago, do pulmão, dos rins e da pressão arterial, sim, por favor, uma palavra que cresça do músculo das coxas, nunca nada aquém. assim como a minha é pra você, agora, essa palavra que te entrego úmida e morna, porque, apesar das mudezes, eu preciso te dizer o que eu não digo, com todo o meu grito, o meu silêncio e o meu gemido, com o meu não-saber-dizer, quando falo, falo, falo, te dizer o que eu não digo! por isso: ricardo, eu...................................................................
 

[sobre uma carta de amor (?) pré-histórica desenterrada numa quarta à noite]