17/08/2014

Sobre tatuagens, mantras e perfeccionismos obsessivos



















Ontem fiz uma nova tatuagem. A quarta de uma sequência que começou cedo, aos dezessete anos, com uma letra M na nuca. Como sempre, recebi (dos outros e de mim mesma) perguntas a respeito da ideia de se tatuar. Tatuar pra quê? E se depois se arrepender? Não tem medo? Sim, o momento de fazer uma tatuagem é, inevitavelmente, um momento marcante, momento de marca, de história, de inscrever no corpo uma espécie de eternidade. Recentemente, li que, entre povos antigos, a tatuagem era como uma prece direcionada às divindades. Como um mantra, como palavras encantatórias que os deuses, assim, ouviriam.

Ontem, quando voltei com a minha nova tatuagem, voltei incomodada. Não tinha gostado de uma letra. Uma letra que saiu diferente de todas as outras (que foram escritas com uma fonte de máquina de escrever). Entre as letras de máquina, uma humana, arredondada, um pouco torta, como se feita com caneta. Então percebi que, em todas as minhas tatuagens, existe algo que me desagrada, algo que eu teria feito diferente. No pássaro, uma curvinha sob a asa. Na pena, uma sombra maior. No M, as linhas mais finas. Eu, sofredora de um perfeccionismo obsessivo, do tipo que me faz refazer e reler e reescrever e repensar tudo quatrocentas e trinta e oito vezes (e que só me é útil na função de revisora, mas terrivelmente desagradável na vida em geral), eu, frequentemente invadida pela vontade de tomar a caneta da mão dos outros para fazer eu mesma o que quer que seja, eu jamais me sentira plenamente satisfeita com uma tatuagem.

Então por que fazer? Por que continuar fazendo? Por que arranjar outras e outras e outras? Porque, no fim das contas, entendi ontem, existe também certa beleza em ter na pele algo que não me agrada inteiramente, algo que não atende plenamente às minhas expectativas, que não corresponde exatamente ao que eu imaginava - algo que me escapa. Tatuar (ou, melhor dizendo, permitir-se ser tatuado), mais do que mera marca individual, é uma forma de lidar com o outro; de existir a partir do outro. Quando digo ao tatuador o que quero, quando levo as fontes, as imagens, as referências, quando explico inúmeras e repetidas vezes, ainda assim, não posso garantir que ele tenha imaginado o mesmo que eu imaginei. O que digo ao tatuador é tragado pela sua compreensão de mundo, pela sua visão das coisas, pelas suas próprias referências, e vem diferente, sempre vem diferente, em direção a um corpo que é meu.

Esse corpo que agora se vê marcado por uma ideia e um desejo meus, mas também por mãos alheias. Mãos cuja vida desconheço, mas que transferem seus próprios referenciais, em certa medida, para a minha pele. Pele que hospeda diferentes vivências, minhas e de outros, diferentes momentos, diferentes desejos, essa pele-livro, essa pele-história, que me impõe o desafio de estar entregue ao outro, em um ato inapagável, de abrir mão do controle por um tempo curto que vai reverberar por uma vida inteira.

Entre as letras de máquina, meu g humanizado não me incomoda mais. Não pela estética, não por atender ao meu perfeccionismo obsessivo, mas exatamente pelo oposto - por me escapar e me colocar frente a frente com a ideia de um outro e um corpo e uma vida que se recusam a me obedecer. O que é a simetria perto disso?