04/09/2013

As mulheres são para todos os lados



 




















 
Quando ela me beijou a boca pela primeira vez, achei que em mim tivesse nascido uma ave de rapina. Antes, havia, cautelosamente, me puxado pelos dedos, um a um, e antes, bem antes, havia chegado com seu corpo estrábico de mulher ao meu corpo estrábico de mulher sem que eu soubesse que isso já era alguma coisa. Se soubesse, talvez tivesse recuado, talvez procurasse evitar os ovos das aves de rapina a se depositarem, sub-repticiamente, em um encostar de braços ou um esbarrar de mãos. Antes, bem antes, havia me indicado um livro, simples e oceânica, com ares de tenho certeza que você vai gostar. Também havia me lido e havia me dado suas músicas e havia se instalado, com a naturalidade de um conta-gotas, em tudo que em mim, até então, dizia Eu. 

Quando ela me beijou a boca pela primeira vez, pensei em Clarice, pensei que o carinho entre mulheres é sempre mais fino, pensei Virginia, pensei Ana, pensei Frida, pensei tudo que comportava e tudo que, principalmente, não comportava, até explodir numa ganância absurda, repetindo para mim mesma que o corpo a corpo não pode ser engaiolado (O que quer uma mulher?) Respondo, turva e latente, mais para mim mesma que para o mundo: Uma mulher quer ser uma mulher. Uma mulher quer uma mulher. Uma mulher quer se tornar qualquer outra coisa que não seja uma mulher. E vejo que já não sei o que estou dizendo, desesperada em manter ou afastar a boca à qual ela me lança agora, sem piedade, em dentes e línguas e lábios, numa urgência que eu própria me pego tendo sem nunca ter percebido que a tinha. Antes, um pouco antes, havia enfiado sua mão suave nos meus cabelos distraídos, havia enfiado seu olhar de petróleo no meu rosto desavisado, havia enfiado sua voz esverdeada nos meus ouvidos gastos, como quem prenuncia o momento final, o grande instante em que toda ela se enfiaria em mim, se impondo com uma certeza diante da qual não me resta espaço para questionamentos.

Com tudo que, em mim, antes dizia Eu, agora me abro e aceito e a acolho – e já não é uma abertura o que se dá, mas uma forma de derretimento, seiscentos e cinquenta músculos corporais subitamente descontraídos, largados e isentos de sua natureza, como se todo o corpo, de repente, já não quisesse mais nada além da ideia de ser um corpo, e como se todo o corpo, de repente, já não quisesse mais nada além de um corpo sobre outro corpo. As mulheres – isso eu já sabia – são para todos os lados. Mas permaneço distraidamente atenta, acolhendo tudo que ela me entrega, acatando o que me impõe, lembrando Frida Ana Virginia, lembrando o carinho entre mulheres, lembrando Gertrude Stein. E Adília. Quando ela me beija a boca pela primeira vez, acho que, em mim, berra – com um único e estridente pio de nascimento e morte confundidos – uma imensa ave de rapina.


Não.

Quando ela me beija a boca pela primeira vez (lástima e consolo), a ave de rapina 

sou eu.
 


(foto: Lucien Clergue)