13/08/2013

Tenho vinte e dois anos e estou cansada de morrer

























tenho vinte e dois anos e estou cansada de morrer. tenho vinte e dois anos, tenho quarenta e oito, sessenta e sete, treze e oitenta e quatro. matei meus próprios filhos e - infantil - me engravidei de mim mesma, como quem olha pra deus e grita todos os silêncios do mundo. mesmo o grito é enviesado, som de mudo tentando falar: eu não nasci pra ser gente. tão antiga, quando percorro meus próprios caminhos, os meus passos têm o peso de uma humanidade inteira. e mesmo o ato de ser mulher é um ato forjado, pois eu - desumana - nasci sem os contornos de mim; vez ou outra caio no mundo e não há quem me recupere. mais uma vez um bebê, a velhice incontrolável de um bebê pulsando pela mudez do corpo. quero ver o silêncio chegar pra gente poder falar o que quiser e deus não ouvir nada. então vou abrir minha boca fragilizada de fêmea condenada pela natureza e dizer: ____________________________. o grito é sempre outro, assim como o instante, nada me pertence (nem mesmo o número no qual me apoio, quebradiça, pra poder dizer "existo há não-sei-quantos anos" e ter certeza de que é assim mesmo). no fundo, não é, e eu venho existindo para além das vidas, cada dia um pouco mais pré-histórica, cada dia mais recém-nascida, como se nascesse e me morresse simultaneamente-paralelamente-diariamente o tempo todo e mais... dia desses o corpo vai sucumbir ao parto e eu, parindo a própria gravidez que me governa, vou anunciar com palavras milenares: não há bebê que me obrigue a endeusar o mundo. então estarei salva (ainda que um pouco morta). e deus vai me beijar com um beijo de homem sem rosto até eu de novo caber no meu próprio corpo e jorrar em choro de criança todas as mortes que experimentei.



[escrito em outubro de 2012]