11/08/2013

O cavalo de turim
















para o que o cavalo de turim me diz eu não tenho ouvidos. eu não tenho ouvidos para esse cavalo resignado e inflamado aos ventos sob a mão humana guia de caminhos - mão ela própria um caminho, ela própria um cavalo, ela própria um ouvido, atenta porém sem rumo diante do nada que se impõe à sua frente. o cavalo, flanco esfolado, patas cortadas, resiste bravio porque não conhece outra forma e aos seus dois olhos não é permitido nenhum outro olhar que não seja o para frente. obedece, em tormento mudo, habituado que está a ser cavalo (quem um dia já foi cavalo sabe que não há outra forma). dos humanos, o que se pode dizer é que comem com as mãos e já não sentem a diferença entre frio e quente, assim como também, lentamente, desaprendem a reconhecer a diferença entre os dias. todos os dias são dias, todos os dias são o mesmo dia. e prosseguem, através de batatas no fogo, baldes de água retirados do poço e camadas de roupas vestidas uma após a outra sem que haja, de fato, algum lugar para ir. silêncio. vem alguém, enfim, avisar que a cidade está morta e aproveita para lançar o lembrete oportuno, embora já sentido em muitas diferentes escalas: deus também morreu. não é preciso ir muito longe para saber. talvez só até o poço, já sem água, até o cavalo, já sem fome, ou rodear um pouco com a carroça cheia de esperas até comprovar o nada que desde sempre a mão suplicante e incerta vinha tateando. isso é só o que há - o cavalo já sabia desde bem antes, quando ainda havia a voz ordenando que, aos galopes, procurasse caminho. teria inventado um, talvez, se tivesse ousado a loucura de não ser cavalo por um instante. mas seguiu sendo e, portanto, não houve nada além de um andar e parar até a desistência dos chicotes.

para o que o cavalo de turim me diz eu não tenho ouvidos. assim como nietzsche não teve e, agoniado, precisou se jogar ao pescoço do bicho em uma tentativa precária de pedir perdão e por favor. também eu, se o tivesse visto, teria deitado em seus pelos meu rosto seco e mudo, até que sua ferida fosse também a minha e seu silêncio fosse também o meu, assim feitos da mesma matéria, como quem nasce. também eu teria, ao lado de nietzsche, levado o chicote nas próprias costas até tomar o flanco esfolado para o meu corpo de gente e em nenhum momento olharia para ele nem ele para mim, cavalos que agora seríamos. mas não o encontrei e não tive o ouvido necessário e o nada me ardeu nas mãos aflitas como uma água-viva encontrada por acaso quando se brincava distraidamente com o mar. então fechei os olhos e aguardei, e continuo aguardando, e já não posso aguardar nada que não seja o interminável aguardo até que as patas justifiquem o chão e as chagas relinchem como se hoje começasse uma vida. que não começa.