04/08/2013

Ainda bem que não posso escrever




















na panela, o peixe queimado; cismou de fazer artesanato, cheiro de tinta pela casa inteira. mesmo ali, no terceiro azulejo branco da esquerda pra direita, ali a denúncia das novidades: mancha disforme e magenta saltando a olho nu. eu não quero nada de você, amor, não quero nada, me deixe aqui com as minhas artes que eu funciono bem sozinha, eu sou até muito independente, inclusive durante os diálogos, porque, veja, minha voz não precisa do seu ouvido pra acontecer, se precisasse também, eu já não diria mais nada, porque sei que você está sempre submerso nas suas distrações e raramente atenta pro que eu digo, a não ser quando mancho as paredes da cozinha com a minha tinta ou queimo o peixe do almoço de domingo. a vizinha segue rindo um riso esgarçado, estridente, e a televisão alta indica que o motivo do riso é igualmente patético, mas você sabe: não há nada mais triste que um domingo; dia sem dentes, somente a gengiva nua e amolecida sorrindo pra nós. enquanto toma conta das suas minúsculas quinquilharias artesanais, diz com uma voz esquecida de emudecer: eu também seria escritor se soubesse como. eu escreveria muitíssimo se pudesse, montes e montes de páginas, escreveria horrores, até transbordar, uma puta de uma overdose de palavras pra todos os cantos, até não restar mais nada o que dizer! mas, olha, não sei, acho que vocês são mesmo é loucos, vocês que se dizem escritores, porque escrever é também falar sozinho, não é, vocês falam e falam, mas vocês não dizem muita coisa, agora mesmo, eu estou aqui falando enquanto você não diz nada e só quem me ouve é o pote de tinta, o ex-peixe que um dia já esteve nesse mundo e agora é pura carne esmigalhada na panela, você que é você não está nem por aqui, você está é todo pra dentro que eu posso perceber, todo pra dentro, sem palavra nenhuma pra me dar. sobre a madeira crua, a tinta azul petróleo, vai ficar bonito, vai fazer alguém feliz esse porta-retrato enfeitado, mesmo que ninguém o compre, ele já nasce com a possibilidade de se doar pras utilidades alheias e isso por si só já é bastante, não é? no fundo, no fundo, o que a gente faz é sempre uma tentativa de se dar um pouco mais – e consegue? pois é, eu sei, estou falando demais, isso é pra você ver o que as palavras fazem, umas vão puxando as outras, fazem a gente entrar num ciclo e, no fim das contas, era tudo artimanha pois nada de fato foi dito, estamos sempre patinando na própria voz. por isso mesmo que eu gosto das tintas, nada é prometido, nada chega a lugar nenhum, apenas uma superfície cobrindo a outra e fica tudo por isso mesmo. inclusive, pensando bem, se eu pudesse escrever, talvez eu preferisse não escrever nada. assim como preferi não sair e não ganhar meu salário mensal, mas sim percorrer os outros caminhos que as pessoas desmerecem mas existem e existem para serem caminhados, você não deu valor e pensa que estou é perdida, queimando peixes e pintando madeiras por aí, mas te digo que, na verdade, estou é mais achada do que nunca, acontece que agora mudei de tempo e esse novo você não conhece muito bem. já no prato está o frango, plano B pros desvios naturais do percurso, ele comendo como quem rumina, ela falando como quem vomita, cheiro de tinta pela casa inteira. e eu não preciso de uma caneta e um papel pra encontrar meus sentidos, amor, vez em quando a gente prefere não fazer as coisas simplesmente porque a gente pode preferir, a gente pode não fazer, e o poder não fazer é tudo, mesmo quando não muda nada. eu mesma posso largar agora esse pincel colorido de laranja, esse futuro porta-retrato que um dia vai segurar a marca da vida de um outro alguém, eu posso largar e ir embora, sair por aí, ir à praia, eu posso, e é o poder que me situa, você entende? às vezes, confesso, fico me perguntando (e só te digo isso porque sei que você não ouve, se ouvisse realmente não te daria confissões), eu fico me perguntando se essas nossas liberdades não são é um disfarce pro nosso querer tão desesperado, será que não? será que eu penso que posso apenas pra achar que, se faço, é porque quero, enquanto - no fundo - a verdade é que eu preciso? e, meu deus, olha só pra você, ninguém nem diz que é um escritor importante, treze obras publicadas, prêmio sei lá da onde, ninguém diz, você comendo esse feijão e essa linguiça no domingo, todo nu das palavras, parecendo até um mudo, até um muro, ninguém diz! eu mesma também não digo é nada, pra mim você é um homem qualquer, sua mania de falar bonito não me convence, pois se na hora da voz se fecha todo como um caramujo! quem te vê dando entrevista até pensa que sabe das coisas, culto, inteligente, mas mastiga a vida e o feijão com mais urgência que um mendigo antigo. se quiser me deixar, já disse, tenho aqui as minhas artes, necessárias ou não, tenho aqui minhas imposições, pode levar essas mil páginas espalhadas pela casa, leva essas letras, vai, você só sabe falar alguma coisa através de muito silêncio e esse silêncio eu já não quero em mim. sim, pensando melhor, ainda bem que eu não posso escrever, que desespero seria se eu pudesse... aliás, melhor ainda que eu nem saiba como escrever, se soubesse, seria obrigada a desaprender.